História da cortiça

A cortiça é um material de origem vegetal proveniente da casca dos troncos dos sobreiros. Este material possui grandes propriedades isolantes.

 

Considerada uma matéria prima nobre por excelência, tem variadas utilizações nomeadamente como revestimento de solos, fabrico de instrumentos musicais, isolamentos térmicos e acústicos, calçado, decoração e também  no sector industrial automóvel, construção, etc.

Quando as árvores atingem os 25/30 anos é feita a primeira extracção que ocorre normalmente nos meses de Junho e Agosto. Esta cortiça proveniente da primeira extracção chama-se “virgem” e é distinguida da cortiça extraída nos períodos seguintes que é designada de “secundária”, e nos períodos subsequentes é chamada de “amadia”. Esta última é considerada a de maior qualidade, sendo a mais valorizada. Esta é a única que pode ser utilizada no fabrico de rolhas. Depois desta fase, a cortiça é extraída a cada nove anos.

 

Cortiça

 

As florestas de sobreiros têm o nome de montado. Este é um ecossistema criado pelo homem e que subsiste apenas no Mediterrâneo, Marrocos, Argélia e no sul da península Ibérica. No caso de Portugal, considerado o país com a maior extensão de sobreiros do mundo (33% da área mundial), possui uma área de 730 mil hectares de montado. Este facto torna o nosso país no maior exportador mundial de cortiça e o maior fabricante de rolhas. A exploração dos montados é incentivada e estes são legalmente protegidos sendo que é proibido o seu abate.

Portugal o país pioneiro sobre esta legislação ambiental sobre os montados. As primeiras leis agrárias que protegem os montados estão datadas do início do séc. XIII em 1209.

 

Descobrimentos - cortiça

 

Mais tarde, durante a altura das Descobertas, os construtores das naus e caravelas portuguesas utilizavam a madeira de sobreiro no fabrico das partes mais expostas às intempéries. Defendiam que o “sôvaro”, como então se dizia, era o que havia de melhor para o liame das naus: além de super resistente, nunca apodrecia.

 

 

O produto, mais conhecido, feito através da cortiça é sem dúvida as rolhas. Estas são consideradas isolantes de uma qualidade excepcional. As rolhas de cortiça ainda hoje são bastante requisitadas pelos grandes produtores de vinho.

 

Rolhas de cortiça

 

O vinho e a cortiça há muito tempo que se conjugam. Em Efeso foi encontrada uma ânfora, datada do séc. I a.C., que se encontrava vedada com uma rolha e continha inclusivamente vinho. Também em Pompéia (cidade arrasada pela erupção do vulcão Vesúvio) foram encontradas ânforas de vinhos vedadas com cortiça.

Ainda no séc. I, o conhecido naturalista Plínio fez uma nova e extensa referência aos sobreiros na sua célebre História Natural. Explicava que na Grécia o sobreiro era adorado como o símbolo da honra e da liberdade e por este motivo só os sacertodes eram autorizados a cortá-los. Nesta obra de Plínio este faz um apontamento sobre a forma como o sobreiro era consagrado ao Deus Olímpico Júpiter e que os seus ramos e folhas serviam para coroar atletas vencedores.

Em Itália também foi encontrados vestígios, datados do séc. IV a.C, de vários artefactos como: telhados de casas, bóias, tampas para tonéis, sapatos femininos. É também desta época que temos outra referência ao sobreiro escrita pelo filósofo grego Teofrasto que, nos seus tratados sobre Botânica, o refere, maravilhado,: “a faculdade que esta árvore possui em renovar a casca quando esta lhe é retirada”.

 

No séc. XVIII o monge benedito francês Dom Pierre Pérignon, tesoureiro da Abadia de Hautvillers iniciou-se no uso da cortiça usando-a para vedar o seu famoso champanhe Dom Pérignon. Nesta mesma altura, em Inglaterra, o físico Robert Hooke, através de um microscópio que ele próprio desenvolveu em França, conseguia obter a primeira imagem microscópica da cortiça.

A exploração sistemática dos montados que caracterizam a Península Ibérica e que ainda hoje subsistem na Catalunha e em Portugal, começou a partir do séc.XVIII quando a produção de rolhas de cortiça se torna o principal objectivo. Mais tarde, durante o séc. XIX, a Tunísia, a Itália e a França reselvem aderir à exploração sistemática dos montados. Tal como a Rússia e os Estados Unidos dão início ao plantio de sobreiros.

 

Candeeiros de cortiça

 

O séc.XIX ficou marcado pelo enorme desenvolvimento da indústria das rolhas. A primeira máquina de fabricação de rolhas é patenteada no Reino Unido e pela primeira vez começa-se novas aplicações industriais para a cortiça como o aglomerado.simples ou branco.

Em 1903 surgem as primeiras rolhas com discos de cortiça natural e corpo de aglomerado. Anos mais tarde, são registadas patentes para a utilização da cortiça na indústria automóvel, nomeadamente em correias de transmissão e pneus.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cortiça passa a ser utilizada em múltiplos equipamentos militares. Nos anos cinquenta, uma empresa americana produz os primeiros ladrilhos de cortiça aglomerada para revestimento coberto com película vinílica.

 

Sofá feito com rolhas de cortiça

 

No séc.XXI a cortiça volta a ser devidamente reconhecida como matéria prime nobre e multifuncional, tal como era respeitada e admirada pelos Gregos e Romanos. Desta forma a reputação das rolhas naturais como vedantes de excelência mantém-se como a preocupação ambiental se tornou uma constante. O recurso a este material ecológico, reciclável e biodegradável cada vez cresce mais sobretudo nas áreas de eco-design direcionado à sustentabilidade. Em Portugal o aproveitamento das potencialidades da cortiça tem vindo a crescer de forma exponencial.

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Escrito por A Senhora do Monte

Uma homenagem ao Portugal das tradições, dos saberes e dos sabores.