Dona Nali e Dona Conceição: duas mulheres que moldaram o caminho d’A Senhora do Monte
Há já quinze anos que a cidade ficou para trás. Quando olho para trás, parece uma outra vida. Pelo meio ficaram cinco concelhos, cinco distritos e sete aldeias diferentes. Foram anos de estrada, de mudanças, de recomeços e, sobretudo, de aprendizagem. Foram também centenas de viagens por todo o país. Viagens para conhecer terras, conversar com pessoas, observar quintais, hortas, currais e cozinhas onde ainda sobrevivem saberes antigos. Em cada paragem havia sempre alguém disposto a contar uma história, mostrar um truque da horta ou explicar como se fazia determinada coisa “antigamente”.
Mas, na verdade, aquilo que mais marcou este percurso não foram os lugares. Foram as pessoas.
Pessoas idosas, espalhadas por muitas regiões do país, que continuam a carregar diariamente tradições com a força dos seus braços. Gente que aprendeu a viver com pouco, a aproveitar tudo e a resolver problemas com aquilo que a terra oferece. Com elas abriu-se um mundo que parecia quase desaparecido: um mundo de subsistência, de auto-suficiência, de independência e de liberdade. Um mundo onde a vida simples junto da natureza é, na realidade, profundamente complexa.
Porque viver da terra implica compreender ciclos. Implica observar o tempo, o solo, as plantas e os animais. Implica saber esperar. E implica também aceitar que nem sempre as coisas correm como planeado. De todas as pessoas que se cruzaram neste caminho, duas ficaram para sempre gravadas na memória: a Dona Nali e a Dona Conceição. Duas mulheres muito diferentes, de regiões diferentes, com histórias de vida diferentes. Mas com algo em comum: uma vida inteira dedicada ao trabalho da terra.
Mulheres que ficaram no seu tempo
A Dona Nali e a Dona Conceição pertenciam a um mundo que já quase não existe. Um mundo de trabalho duro, de horta diária, de galinhas no quintal, de coelhos no curral e de comida feita quase exclusivamente com aquilo que se produzia. Viveram um passado que o mundo moderno deixou para trás. Mas nunca abandonaram a sua forma de viver. Continuaram firmes no seu mundo, desconfiadas da modernidade urbana e das ideias novas que de vez em quando apareciam. Para elas, muitas das técnicas modernas eram recebidas sempre da mesma maneira, com uma frase que ouvi dezenas de vezes: “Isso aqui não funciona.” Na altura parecia uma crítica. Hoje sei que era uma forma estranha de carinho.
A Dona Nali e o primeiro contacto com a terra
A Dona Nali apareceu no início deste percurso, quando ainda estava no Cartaxo. Foi o primeiro verdadeiro contacto com a vida da terra. A relação nasceu quase de forma espontânea. Ela aparecia muitas vezes sem avisar, quase como se surgisse do nada. Às vezes, quando chegava de manhã à horta, já lá estava ela. Outras vezes tinha passado antes e já tinha regado qualquer coisa. E estava sempre atenta a tudo o que fazíamos. Observava em silêncio durante algum tempo e depois dizia: “Isso aqui não funciona.” Na altura discutia, explicava conceitos, falava de permacultura, de técnicas novas e de abordagens diferentes. Ela ouvia… e repetia a frase.
Hoje percebo que aquela frase escondia algo mais profundo. Era uma forma de dizer: “Quero que tenha sucesso. E a única forma que conheço é esta.” Era uma forma de amor.
Lições que não se aprendem nos livros
Com a Dona Nali aprendi algumas das lições mais importantes da vida no campo. Aprendi a importância do ciclo do estrume. Aprendi a importância de guardar sementes. Aprendi que a terra responde à persistência diária. Quem cresce na cidade está habituado a resultados imediatos. Carrega num botão e acontece. No campo não é assim. No campo tudo demora. Tudo se constrói aos poucos. Pequenos gestos todos os dias que só mostram resultados meses ou anos depois. É uma forma completamente diferente de viver o tempo.

A história da galinha
Entre muitas histórias com a Dona Nali, há uma que nunca esqueci. Tínhamos uma galinha doente. Estava a ser tratada com uma mézinha antiga: azeite com cebola picada. Durante dias tentámos recuperá-la. Mas não melhorava. Um dia a Dona Nali pegou na galinha e disse que tratava do assunto. Começou a conversar enquanto segurava a galinha com uma mão. Falávamos de outras coisas. De histórias antigas, de gente da aldeia, da horta. Passados uns minutos voltámos ao assunto da galinha. “Já está tratado”, disse ela. Só nesse momento percebi o que tinha acontecido. Enquanto me distraía com a conversa, tinha morto a galinha.
Sem drama. Sem hesitação. Era um gesto duro. Um gesto que, para quem vem da cidade, parece cruel. Mas no campo há momentos em que é preciso tomar decisões rápidas e, por vezes, duras. A natureza é abundante mas também cruel. Hoje percebo que, mais uma vez, foi um gesto de cuidado. Ela resolveu o problema sem me obrigar a lidar diretamente com ele.
A Dona Conceição e a vida em Góis
Anos mais tarde, já em Góis, apareceu outra figura marcante. A Dona Conceição. Vivíamos praticamente porta com porta. As casas estavam separadas por uns quatro metros. Ela adoptou-me de uma forma que só quem vive em aldeias entende. Quando eu vinha a casa almoçar, muitas vezes já tinha o almoço preparado. Era impossível recusar. Também fazíamos competição de broas de milho. Ensinou-me a sua receita e depois provávamos as duas broas para ver qual era melhor. Eu puxava a minha mais para o mal cozido, a dela era sempre mais bem cozida e, claro, tinha o toque que a receita não trazia. E havia sempre muita conversa e risos pelo meio, claro. A frase favorita dela era: “Seus pecantes!” Dizia aquilo com um sorriso enorme.

A frase que ouvi por todo o país
Tal como a Dona Nali, também a Dona Conceição tinha a sua opinião sobre as técnicas novas. E repetia a mesma frase. “Isso aqui não funciona.” Eu insistia. Explicava permacultura, agroflorestas, novas formas de olhar para a terra. Ela ouvia, ria-se e repetia a frase. Era o método tradicional. O método que sempre funcionou para ela. Hoje sei que aquela frase não era resistência à mudança. Era simplesmente a defesa de um conhecimento que tinha funcionado durante décadas.
Porque nunca mais voltei
Estas duas mulheres foram tão importantes neste percurso que, depois de sair dessas terras, nunca mais consegui voltar. Voltar significava enfrentar algo que não queria ver. Significava perceber que já não estavam lá. Significava ver as hortas abandonadas, os galinheiros vazios e as ervas a crescer onde antes havia vida. Preferi guardar as memórias como eram. Ainda hoje, quando penso nelas, vejo-as nos seus quintais. A Dona Nali a observar a horta. A Dona Conceição a rir e a chamar “pecantes” a toda a gente. Ambas a cuidar das galinhas, dos coelhos e da terra. Sempre com histórias do antigamente. Sempre com uma palavra amiga. E sempre com aquela frase que agora entendo perfeitamente: “Isso aqui não funciona.”

