Canículas e Caniculares: a antiga tradição de Agosto para prever o tempo do ano seguinte
Canículas e Caniculares: quando os antigos olhavam para Agosto para saber como seria o ano
Muito antes das aplicações de meteorologia, dos satélites e dos modelos informáticos, quem vivia da terra tinha de aprender a interpretar o céu.
Para um agricultor, saber se o Inverno seria chuvoso, se a Primavera chegaria cedo ou se o Verão seria particularmente seco não era apenas uma curiosidade. Podia determinar quando semear, plantar, podar, guardar alimento para os animais ou preparar a terra.
Foi assim que, ao longo de muitas gerações, nasceram inúmeras formas populares de previsão do tempo. Algumas ficaram registadas nos provérbios, outras nos calendários agrícolas e muitas foram simplesmente transmitidas de avós para netos.
Uma das mais curiosas é a tradição das Canículas e Caniculares, segundo a qual determinados dias de Agosto podem dar indicações sobre o estado do tempo nos meses do ano seguinte.
Não se trata de meteorologia científica. É uma tradição popular. Mas é precisamente por isso que merece ser conhecida e preservada.
O que são as Canículas e Caniculares?
Segundo uma tradição ainda conhecida em algumas regiões de Portugal, durante Agosto observavam-se cuidadosamente dois conjuntos de dias.
As datas podem variar ligeiramente consoante a região e a tradição familiar, mas uma das versões portuguesas estabelece:
Canículas: de 2 a 13 de Agosto
Caniculares: de 15 a 26 de Agosto
Cada um destes doze dias corresponde a um mês do ano.
Assim:
2 de Agosto — Janeiro
3 de Agosto — Fevereiro
4 de Agosto — Março
5 de Agosto — Abril
6 de Agosto — Maio
7 de Agosto — Junho
8 de Agosto — Julho
9 de Agosto — Agosto
10 de Agosto — Setembro
11 de Agosto — Outubro
12 de Agosto — Novembro
13 de Agosto — Dezembro
Depois surgem as Caniculares, funcionando como uma segunda observação dos mesmos doze meses.
15 de Agosto — Janeiro
16 de Agosto — Fevereiro
17 de Agosto — Março
18 de Agosto — Abril
19 de Agosto — Maio
20 de Agosto — Junho
21 de Agosto — Julho
22 de Agosto — Agosto
23 de Agosto — Setembro
24 de Agosto — Outubro
25 de Agosto — Novembro
26 de Agosto — Dezembro
A ideia tradicional consiste em comparar as duas observações para tentar perceber a tendência meteorológica de cada mês.
Não basta olhar para a temperatura
Este é provavelmente o aspecto mais interessante desta tradição.
Seria fácil pensar que um dia quente em Agosto significaria simplesmente um mês quente ou seco no ano seguinte. Mas quem seguia as Canículas observava muito mais do que isso.
O agricultor estava atento ao dia inteiro.
Observava o céu ao nascer do Sol.
Reparava na direcção e intensidade do vento.
Procurava nuvens pouco habituais para Agosto.
Sentia a humidade durante a madrugada e ao anoitecer.
Observava se havia orvalho.
Prestava atenção a nevoeiros, trovoadas, mudanças bruscas de temperatura e alterações inesperadas do vento.
Até o comportamento dos animais podia entrar nestas observações.
Era, portanto, uma leitura bastante mais complexa da paisagem.
Como fazer a observação das Canículas
Se você quiser recuperar esta tradição, basta ter um pequeno caderno dedicado às observações.
Todos os dias faça pelo menos três registos:
De manhã
Anote:
- temperatura aproximada;
- presença de orvalho;
- nevoeiro ou neblina;
- nebulosidade;
- direcção do vento;
- humidade perceptível;
- aspecto geral do céu.
Durante a tarde
Observe novamente:
- calor;
- vento;
- formação ou desaparecimento de nuvens;
- mudanças bruscas;
- trovoadas ao longe;
- sensação de ar seco ou húmido.
Ao anoitecer
Faça uma última observação:
- temperatura;
- humidade;
- vento;
- nuvens;
- aspecto do horizonte;
- alterações relativamente à manhã.
Não é necessário ter uma estação meteorológica.
Aliás, para compreender esta tradição é interessante começar precisamente como os antigos: observar primeiro e medir depois.
Um exemplo prático
Imagine que está a observar o dia 4 de Agosto, correspondente a Março.
A manhã nasce fresca e com bastante orvalho. Durante a tarde aparecem nuvens e o vento muda de direcção. Ao final do dia sente novamente bastante humidade.
Na interpretação tradicional, estes sinais poderiam apontar para um Março relativamente húmido ou instável.
Depois observa o dia 17 de Agosto, que nas Caniculares volta a corresponder a Março.
Se encontrar novamente sinais de humidade, nebulosidade ou instabilidade, a tradição consideraria essa repetição como um reforço da tendência.
Naturalmente, isto não significa que Março vá efectivamente ser chuvoso.
É uma interpretação tradicional, não uma previsão científica.

O valor estava na experiência acumulada
Há um aspecto destas tradições que muitas vezes esquecemos.
Um agricultor com 60 ou 70 anos podia ter passado praticamente toda a vida no mesmo lugar.
Conhecia aquela encosta.
Sabia de onde vinha o vento antes de uma trovoada.
Conhecia o cheiro da terra quando aumentava a humidade.
Sabia quando determinadas aves mudavam o comportamento.
Reconhecia a chegada de certas nuvens.
Sabia quais os terrenos que conservavam água e quais secavam primeiro.
Não estava necessariamente a prever o tempo através de um único sinal. Estava a comparar aquilo que observava com décadas de experiência acumulada.
É precisamente aqui que devemos separar duas coisas.
Uma coisa é afirmar que doze dias de Agosto conseguem cientificamente prever doze meses do ano seguinte. Não existem bases sólidas para fazer essa afirmação.
Outra coisa bastante diferente é reconhecer o enorme conhecimento meteorológico empírico que existia nas comunidades rurais.
Esse conhecimento merece atenção.
Um calendário construído pela observação da natureza
As Canículas e Caniculares pertencem a uma família muito maior de conhecimentos tradicionais.
No campo português, praticamente tudo podia servir para interpretar a aproximação de uma mudança do tempo.
A formação de determinadas nuvens.
O voo baixo das andorinhas.
O comportamento das formigas.
A intensidade do orvalho.
A direcção do fumo das chaminés.
O aparecimento de nevoeiro em determinados vales.
A forma como o gado se comportava.
A floração antecipada ou tardia de algumas plantas.
E, naturalmente, o vento.
Quem dependia directamente das condições meteorológicas aprendia inevitavelmente a observar estes sinais.
O que mudou com as alterações no clima?
Há ainda uma questão interessante.
Muitas regras populares foram criadas num clima relativamente diferente daquele que hoje encontramos.
Na Península Ibérica temos assistido a alterações na duração dos períodos quentes, na distribuição da precipitação e na frequência de fenómenos extremos.
Os Verões mediterrânicos são naturalmente secos, mas períodos prolongados de calor e seca podem alterar alguns dos sinais utilizados pelas gerações anteriores.
O próprio tópico do MeteoPT sobre as Canículas chama a atenção para esta questão: Agosto tornou-se, na percepção de alguns observadores rurais, bastante mais estável e persistentemente quente do que era algumas décadas atrás.
Isto torna ainda mais interessante voltar a fazer estes registos.
Não necessariamente para prever o futuro, mas para comparar anos.
Transforme a tradição numa experiência
Existe uma maneira simples de testar as Canículas e Caniculares sem cair nem na crença cega nem no desprezo pela tradição.
Registe os dados.
Durante Agosto faça uma tabela com os 24 dias.
Anote:
| Data | Mês correspondente | Manhã | Tarde | Noite | Vento | Humidade | Nuvens |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2 Agosto | Janeiro | ||||||
| 3 Agosto | Fevereiro | ||||||
| 4 Agosto | Março | ||||||
| … | … | ||||||
| 13 Agosto | Dezembro |
Repita o processo entre 15 e 26 de Agosto.
Depois guarde o caderno.
Durante o ano seguinte vá comparando aquilo que escreveu com o tempo que realmente ocorreu.
Faça isso durante cinco ou dez anos e terá um registo muito mais interessante do que qualquer opinião sobre o assunto.
Pode descobrir que não existe qualquer relação.
Ou pode encontrar algumas coincidências curiosas.
Mas encontrará certamente outra coisa: começará a observar o tempo de uma maneira completamente diferente.
Voltar a aprender a olhar para o céu
Talvez seja esta a parte mais valiosa das Canículas e Caniculares.
Hoje conseguimos saber no telemóvel qual a probabilidade de chuva para daqui a algumas horas sem sequer olhar pela janela.
Temos muito mais informação meteorológica, mas podemos estar a perder capacidade de observação.
Quem trabalha diariamente numa horta acaba por recuperar alguma dessa sensibilidade.
Você começa a perceber quando o vento muda.
Nota imediatamente uma manhã com humidade pouco habitual.
Reconhece o aspecto das plantas depois de uma noite muito seca.
Percebe quando o solo perdeu demasiada água.
Aprende onde aparece primeiro o orvalho.
E começa, inevitavelmente, a olhar novamente para as nuvens.
Na agricultura biológica e na permacultura esta observação é particularmente importante. Conhecer o microclima da propriedade ajuda a escolher espécies e variedades, definir épocas de plantação, gerir a rega e proteger o solo.
Um solo com boa quantidade de matéria orgânica, por exemplo, consegue conservar melhor a água. A cobertura do solo também reduz as perdas por evaporação e protege a superfície das temperaturas elevadas, práticas particularmente importantes nos nossos Verões mediterrânicos.
Por isso, observar o clima e adaptar a agricultura às condições locais continua a ser tão importante hoje como era para os nossos avós.
Ciência ou tradição?
As Canículas e Caniculares devem ser apresentadas pelo que são: uma tradição popular de previsão meteorológica.
Não substituem uma previsão do IPMA, uma estação meteorológica ou os modernos modelos meteorológicos.
Mas isso não significa que devam desaparecer.
O conhecimento tradicional faz parte da nossa cultura rural e mostra-nos sobretudo uma maneira diferente de nos relacionarmos com a natureza.
Os nossos antepassados precisavam de observar.
Dependiam da chuva, do vento, da geada e do calor para sobreviver.
E quando não havia satélites nem previsões a dez dias, o melhor instrumento disponível era a experiência acumulada de muitas gerações.
Este Agosto, faça a experiência
Pegue num caderno.
Entre os dias 2 e 13 de Agosto observe as Canículas.
Entre 15 e 26 observe as Caniculares.
Não tente apenas perceber se está calor ou frio.
Observe o vento. Procure o orvalho. Repare nas nuvens. Veja como nasce e termina o dia. Observe os animais e as plantas.
Registe tudo.
Depois guarde essas páginas e acompanhe o ano seguinte.
Pode ser que as Canículas não lhe revelem o futuro.
Mas provavelmente vão ensinar-lhe algo que também estamos a perder: parar alguns minutos e voltar a observar verdadeiramente o tempo, a terra e o céu.

